quinta-feira, 25 de junho de 2015

Patriarcas e Matriarcas dos Tempos Bíblicos: Os Primórdios do Povo de Deus

Por Marcelo Oliveira de Oliveira

Nas Sagradas Escrituras, algumas personagens se destacam pelo exemplo de fidelidade a Deus, de amor e compromisso pela própria comunidade ― no caso do Antigo Testamento, o amor deles pela família nuclear e, posteriormente, pelo clã[1]. Normalmente, elas se destacam como homens, e somente lembramos o aspecto masculino dessas personagens nômades, esquecendo-nos de que, igualmente, as mulheres desempenharam um papel importante junto ao povo de Deus e para a história política, social e religiosa de Israel e, principalmente: para a Igreja. Me refiro aos patriarcas e as matriarcas dos tempos bíblicos: Abraão e Sara; Isaque e Rebeca; Jacó e Raquel.

As narrativas bíblicas desses patriarcas e matriarcas estão nos capítulos 12 a 50 do primeiro livro da Bíblia, o Gênesis. Em teologia, os estudiosos classificam “narrativas patriarcais” às histórias dos três casais, que juntamente com os seus filhos, formam a pré-história da nação de Israel. Antes de a nação tomar posse da terra de Canaã, havia memórias, histórias com base na oralidade do povo ancestral daquela geração que conquistou Canaã, contadas pelos ancestrais e reunidas por um autor[2] a fim de formar a história tribal mais antiga do povo de Israel; antes mesmo de começar a viver como tribos na antiga Palestina.

Então o que representava os principais patriarcas e matriarcas dos tempos bíblicos?

1. Abraão e Sara. O nome Abraão significa “pai de uma multidão”. Em Cristo ele é o nosso pai na fé (Gl 3.6-9). É com Abraão que se inicia a história da salvação da reconciliação de Deus com o mundo todo: a história da salvação. Exemplo de fidelidade a Deus, Abraão partiu para uma terra desconhecida crendo na promessa. Sua grande prova de fé foi a entrega de seu filho para ser sacrificado. Sua esposa Sara (cujo nome significa princesa) é a mãe de uma multidão que também disse sim a promessa de Deus, que em Cristo é a nossa mãe na fé.

2. Isaque e Rebeca. Isaque significa “Deus ri”. Filho de Abraão e Sara, quase foi sacrificado pelo pai. No final de sua vida foi enganado pela sua esposa, Rebeca, e por seu filho, Jacó, em troca da bênção da primogenitura. Rebeca lutara por Jacó, Isaque, por Esaú: nações divididas dentro de casa.

3. Jacó e Raquel. O nome de Jacó significa “malandro”. Entretanto, no sul da Arábia e na Etiópia significa “que Deus proteja”.[3] Filho de Isaque e Rebeca, teria o nome de “malandro” devido o roubo da primogenitura do seu irmão, Esaú. Mais tarde recebe o nome de “Israel”. A partir de Israel, por intermédio dos seus doze filhos, começa a se “rascunhar” o projeto de povo e nação. A fidelidade de Israel a Deus, embora passando por provações, aponta para o nascimento de um povo. Jacó amava a sua esposa Raquel: a nação de Israel chorou sua morte e morte dos seus filhos por séculos.

Sobre esse trio de casais patriarcais e matriarcais, a carta aos Hebreus traz uma concepção de fé intrigante, na contramão do que popularmente se entende por resultados da fé no mundo evangélico:

Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas, mas, vendo-as de longe, e crendo nelas, e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra” (11.13).

Paz e Bem!


[1] No aspecto antropológico, é o conjunto de famílias que se presumem ou são descendentes de ancestrais comuns.
[2] Os mais recentes estudos, embasados na teoria das fontes, formando uma tradição literária nos cinco primeiros livros da Bíblia (o Pentateuco), apontam quatro fontes principais presentes no texto contemporâneo do Pentateuco: a eloísta, a javista, a sacerdotal e a deuteronomista. (Para conhecer mais sobre essa tradição literária clique em As Tradições Orais do Pentateuco ― o texto é um trabalho de pesquisa apresentado à cadeira Antigo Testamento I da FATER - Faculdade de Teologia e Ciências Sociais do Recife ).
[3] Dicionário Bíblico Wycliffe, CPAD, p.1004.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Hoje a Assembleia de Deus faz 104 anos: Como vou comemorar?


Marcelo Oliveira de Oliveira

Hoje, 18 de Junho, comemoramos 104 anos de Assembleia de Deus no Brasil. A minha maneira de comemorar essa data é comentando uma recente pesquisa elaborada pelo cientista da religião Gedeon Freire de Alencar, publicada na Revista Reflexus (Ano VIII, n.12, 2014/12) ― uma revista especializada da Faculdade Unida, ES.

“Hoje diversos pastores assembleianos têm formação universitária. Quem são essas pessoas? O que pensam sobre os temas doutrinários e institucionais internos da denominação e também sobre os problemas externos que dizem respeito à sociedade em que vivem” (p.3): É o que pretende responder o pesquisador.
Nós, membros da Assembleia de Deus no Brasil, e de seus respectivos ministérios, precisamos compreender o “caráter continental” e plural da nossa denominação, respondendo às perguntas diretas, sem rodeios e honestas. Isso não significa elogio à pesquisa do doutor Gedeon, pois não podíamos esperar outra coisa de sua pena ― obras como “Protestantismo Tupiniquim”, “Assembleias de Deus” e “Matriz Pentecostal Brasileira” dão conta da seriedade e da competência do pesquisador. A questão é o que os ministros da Assembleia de Deus poderão fazer com informações que pretendem descortinar a realidade e a práxis ministerial de nossa igreja?

O público da pesquisa de Gedeon Freire de Alencar é formado por um universo de pessoas com o ensino superior completo, oriundo de diversas regiões do Brasil. Como a pesquisa foi feita via internet, a amostra da diversidade da denominação no país está garantida. Esses pastores são oriundos de diversas convenções regionais e estaduais ligadas às duas principais convenções nacionais: CONAMAD (Assembleia de Deus em Madureira) e CGADB (Assembleia de Deus da Missão); bem como convenções e ministérios autônomos e igrejas assembleianas diversas que reúnem pastores assembleianos independentes.

Entretanto, o pesquisador menciona um problema que pode mostrar um ponto fraco da pesquisa: é possível as perguntas terem sido respondidas por não-pastores assembleianos e sem formação de Ensino Superior. Todavia, o autor contrapõe essa dificuldade com a seguinte reposta: “com ou sem a titulação ‘pastor assembleiano’ ou o grau universitário, uma pessoa de fora desta igreja (sem conhecimento interno do funcionamento de suas estruturas, de sua história e teologia) não conseguiria responder, pois as questões pedem um conhecimento quase ‘esotérico’. Ademais, o questionário foi montado de forma que sem responder alguma pergunta não se podia avançar; ou seja, todas tinham respostas obrigatórias” (p.6). Como toda pesquisa científica que se preza, a informação completa e honesta deve ser repassada ao leitor, tanto o seu ponto positivo quanto o seu ponto negativo.

Em suma, a pesquisa está dividida em quatro grandes blocos: questões pessoais, doutrinárias, institucionais, políticas e sociais. Com respostas graduais que variam em absolutamente a favor, a favor, indiferente, contra e absolutamente contra.

Por isso, ser importante a os ministros e demais membros de nossa instituição acessar as informações dessa pesquisa, pois conhecê-las, entendê-las e pensá-las é necessário para propormos novos passos em cada universo local em que a nossa congregação estiver alocada. Sem dúvida, as informações do pesquisador Gedeon Alencar têm muito a nos acrescentar ministerialmente, culturalmente e institucionalmente.



Rio de Janeiro, 18 de Junho de 2015.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Há algo podre nessa história: os dois lados da "blasfêmia da cruz"


Marcelo Oliveira de Oliveira

Os ânimos estão exacerbados no Brasil. Duas classes, dois movimentos e duas sociedades: assim querem dividir a nação brasileira. É a briga do “nós contra eles”. É o encontro de duas mentalidades extremistas e de interesses meramente particulares: o de classe e o de algumas instituições religiosas.
O “sacrilégio da cruz” ocorrido no último final de semana da Parada Gay gerou “gasolina” e “querozene” para os movimentos LGBT e de algumas lideranças evangélicas. Embora haja razões legítimas de uma parcela religiosa criticar o ato ignóbil praticado pelo movimento gay, é importante destacarmos que nessa história há algo de podre nos dois lados. Vejamos.
O movimento LGBT quer impor uma agenda de gênero à sociedade brasileira. Dizendo que tais identidades de gênero, isto é, a ideia de masculinidade e feminilidade, é uma construção cultural e histórica da sociedade, não tendo, portanto, as famílias o direito de conservar alguns valores morais que elas entendem por absolutos, quer por motivo religioso quer motivo ético.
Nada mais falso e desonesto!
Os gêneros masculinos e femininos são uma condição humana, uma determinação biológica e natural em que a sociedade que se encontra em torno desse indivíduo humano o reconhece como portador dessa condição natural e biológica. Não podendo, por isso, alterar a potencialidade condicionante desses gêneros nos seres humanos. As exceções (transexuais, hemafroditas etc.) não desconstroem essa condição humana natural. Embora o conceito de gênero seja uma construção humana, convencionada pelos povos para reconhecerem o fenômeno biológico e natural, neste caso, a convenção dos povos é certeira e precisa: masculino e feminino são fenômenos naturais que constituem em grau de importância a condição humana. Por isso, é uma piada de muito mal gosto a militância gay impor uma agenda desconstrutivista das identidades de gênero nas escolas, nas repartições públicas, nas instituições religiosas, nas famílias e em quaisquer esferas da sociedade, pois negar os gêneros tradicionais reconhecidos e apontados pela sociedade é negar a própria condição humana.   
Entretanto, isso não significa que o Estado, como de direito e republicano, deva se omitir quando pessoas do mesmo sexo se unem e constroem um patrimônio, uma herança e uma série de bens. O Estado precisa regulamentar tais relações e fenômenos sociais. Não reconhecer isso é não reconhecer o direito básico de um indivíduo seja ele quem for.
O problema é que o movimento gay não se contenta apenas em garantir determinados direitos legais. Ele que ir mais além. O movimento deseja mudar a cabeça dos cidadãos, suas mentes e corações, à força. O ódio é a base do movimento, pois sua ideologia está fundamentada nas lutas de classe, do confronto social entre “oprimido e opressor”. Neste caso, o oprimido é o movimento gay e o opressor é a sociedade brasileira.  
Por outro lado, temos um movimento evangélico em que alguns líderes religiosos aprenderam o caminho da eleição fácil. Em nome de uma agenda moralista, virou moda alguns pastores brasileiros elegerem vereadores, deputados e até senadores que os representam. Note bem: tais políticos representam uma instituição religiosa, uma agremiação evangélica e não a totalidade dos evangélicos que os elegeram, nem muito menos a sociedade brasileira.
Além disso, nas ditas “Marcha para Jesus”, sabemos que há dinheiro público envolvido nisso e, que no final das contas, o administrador público pedirá conta dessa “contribuição” no ano da eleição. Não é a toa que, aqui, no Rio de Janeiro, vimos uma incoerência marcante nas últimas eleições. O mesmo líder e tele-evangelista que vocifera contra o movimento gay apoiar o candidato do governo que mais contribuiu para a agenda gay nesse Estado.
Os líderes do Movimento Evangélico no Brasil precisam entender que a sociedade brasileira vem amadurecendo educacional e politicamente. De modo que, tal sociedade sabe diagnosticar quando um discurso é vazio de prática ― não dá para vociferar contra a promiscuidade alheia quando ela está dentro de sua própria casa. Infelizmente, a sociedade brasileira não está nos reconhecendo pela prática do amor e pela pregação do Evangelho, mas pelo embate, pela briga e pelo confronto.
A blasfêmia desse final de semana é só a ponta do iceberg do que ainda está por vim se esses extremismos não pararem por aí...

Paz e Bem!


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Conhecendo as Doutrinas Cristãs

Lição 1 – O Que é Crer
Lição 2 – Conhecendo a Bíblia
Lição 3 – Crendo para Interpretar a Bíblia
Lição 4 – Crendo no Deus Trino
Lição 5 – Crendo em Deus Pai
Lição 6 – Crendo em Jesus Cristo
Lição 7 – Crendo na Vinda de Jesus Cristo
Lição 8 – Crendo no Espírito Santo
Lição 9 – Crendo no Batismo com o Espírito Santo
Lição 10 – Crendo na Santa Igreja Cristã, a Comunhão dos Santos
Lição 11 – Crendo nas Ordenanças da Igreja Cristã
Lição 12 – Crendo na Graça de Deus
Lição 13 – Crendo Ressurreição do Corpo e na Vida Eterna

Quero agradecer a Deus pela alegria de ver mais um trabalho publicado. Nesse momento, passa um filme em nossa mente, e começamos a lembrar algumas coisas faladas lá atrás que se começa cumprir...
À minha esposa linda pela paciência e incentivo nos momentos mais intenso de produção textual ― igualmente, nos unimos também no momento de dor.
À Igreja Assembleia de Deus em São João de Meriti, comunidade onde congrego, e, particularmente, a pessoa do meu pastor Edgar dos Santos de Amorim, pela sua bênção e permissão de me afastar de alguns compromissos devido a esses trabalhos e outros literários.

Com muita humildade, peço aos amigos deste simples espaço que, na medida do possível, aprecie a leitura dessa revista. Foi um texto escrito com muita verdade e paixão no coração.

Paz e Bem!

segunda-feira, 16 de março de 2015

Ore, jejue e faça passeatas pacíficas, democráticas e patrióticas


Ontem não fui à manifestação que tomou as ruas do Brasil. Escolhi participar da Ceia do Senhor e do Batismo em Águas: ordenanças que aconteceram neste domingo na igreja em que congrego ― nada melhor do que vê nascidos de novo confessarem Cristo publicamente diante de Deus, da família e da Igreja. Creio piamente que o Brasil só será diferente quando grande parte do seu povo tiver um verdadeiro encontro com o Evangelho de Cristo (não o que se prega em nome dEle) e um sincero avivamento de dentro para fora acontecer nas igreja evangélica brasileira (o sinal claro desse avivamento é a quebra de um sistema de governo que emperra qualquer iniciativa simples e espontânea de um discípulo de Cristo). Entretanto, muitos irmãos em Cristo escolheram ir às ruas no dia de ontem.
Esses irmãos em nada “pecaram” contra o Senhor e à Igreja. É inadmissível em pleno século XXI, num momento crucial em que vivemos em nosso país, líderes religiosos dizerem: “crente não faz passeata, crente ora e jejua”. Com todo respeito a quem pensa diferente: crentes em Jesus ora e jejua, mas faz passeatas sim, desde que pacificamente. Não há pecado nisso, não há falta de fé, nem muito menos rebelião contra o governo central ― o nosso sistema governamental é tripartite: Poder Legislativo, Poder Executivo e Poder Judiciário; isto é, o presidente da república tem limites bem demarcados para exercer a sua função. E graças a Deus a nossa Constituição é democrática e quando o povo decide ir às ruas de maneira pacífica, ele está amparado constitucionalmente: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente [indo às ruas, colhendo assinaturas para fazer aprovar leis como a Ficha Limpa, etc.], nos termos desta Constituição” (Artigo 1º, parágrafo único da Constituição Brasileira). O povo nas ruas é como se fosse o cliente que pagou pelo serviço e foi lesado pela empresa prestadora desse serviço. É direito desse cliente de reclamar, processar e denunciar a empresa que o lesou. De certo modo, a presidência da república, as empresas estatais e o funcionalismo público são servidores da sociedade brasileira. Eles têm contas a prestar aos cidadãos que pagam impostos ― e impostos altíssimos. De fato, neste domingo, a sociedade resolveu pedir contas e deu um recado claro à presidente da República e ao Partido dos Trabalhadores: não aguentamos mais o jeito de vocês governarem.
Portanto, oremos e jejuemos, mas saiamos às ruas quando necessário. Sempre de forma pacífica, responsável e coerente, pois é um direito assegurado pela nossa Constituição. Como cidadãos, devemos cumprir a Constituição Brasileira e reclamá-la quando quem deveria fazer cumpri-la se omite: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e o não faz comete pecado” (Tg 4.17).

Deus abençoe a nossa nação!

Paz e Bem!

P.S. 1 Quem pediu intervenção militar (diga-se: uma minoria em relação ao amplo movimento) não viveu o tempo da ditadura, e talvez nem saiba o que está sob a tutela de um governo despótico, seja essa ditadura de direita ou de esquerda. Além do mais, a intervenção defendia por alguns dentro do amplo movimento é inconstitucional e antidemocrática e, definitivamente, não resolverá o problema do país. Uma, das poucas cenas lamentáveis desse grandioso movimento nacional.

P.S. 2 Sou contra o impeachment da presidente, pois não há fatos concretos contra ela. Diferentemente do único presidente impedido pelo Congresso de governar, em que foi constatado depósitos não explicados nas contas particulares da secretária, do mordomo, da ex-mulher e da mãe, e despesas pessoais pagas pelo tesoureiro do seu partido, não há nada concreto nesse período de 3 meses de mandato que responsabilize a atual presidente da República.  Trocar governo não é como trocar de roupas. A sociedade precisa continuar cobrando, na esperança de que o Brasil retome o trilho até 2018, onde então, democraticamente e constitucionalmente, teremos direito de dar um sonoro “nãoooooooo” ao governo atual.

P.S. 3 É perfeitamente possível o Brasil ser o país do futebol e da política. Todo ato político é simbólico. E não houve nada mais simbólico do que as cores amarela e verde invadirem as ruas de nosso país. Diferente de sexta-feira, em que militantes pró-Dilma foram pagos pelos sindicatos, bancados por nós por intermédio das verbas públicas, escolheram as cores vermelhas do comunismo; os brasileiros preferiram o verde e o amarelo do Brasil e o hino nacional para dizer “basta!”. Não somos comunistas, somos brasileiros!

P.S. 4 Os crentes, como qualquer trabalhador brasileiro, não têm tempo de fazer passeata no dia de semana em pleno horário de expediente. O que resta é o período de tempo após o expediente (como aconteceu em junho de 2013) ou o domingo.


P.S. 5 Se na rua de acesso a uma igreja local passa uma ponte sobre um rio, cujas grades que protegem as pessoas de caírem nesse rio estão enferrujadas e quebradas há tempo, apenas esperando a primeira vítima para, em seguida, o órgão público responsável tomar a iniciativa que lhe cabe; o que impede uma igreja local de tirar fotos daquele fato, documentá-las, colher assinaturas de moradores e formalizar uma reclamação ao órgão público responsável? É mais produtivo para uma instituição religiosa ilibada denunciar o descaso público e solicitar a tomada de providência da questão do que uma pessoa física tentar fazê-lo. Mas após de o problema resolvido, virá a maior tentação da liderança local: a autoridade pública que solucionou a questão visitará a igreja a fim de receber dividendos eleitorais pela sua ação. É nesta hora que a Igreja Local deve dar “a César o que é de César”, isto é, agradecer gentilmente à autoridade pública por atender a reclamação da sociedade; mas igualmente “a Deus o que é de Deus”, ou seja, deixar claro para a autoridade que o que ela fez não foi mais do que a sua obrigação, e não o fez à Igreja, mas a sociedade que, consequentemente, a igreja está situada e que, acima de tudo, respeita os seus membros moradores daquela região e que precisam de acesso decente para ir e vir: o direito básico fundamental de qualquer cidadão. Aqui se faz ouvir mais ainda a advertência de Tiago, o irmão do Senhor: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e o não faz comete pecado” (Tg 4.17).

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Domingo Cristão: encontros e desencontros

Domingo, “o dia do Senhor”. Encontros e desencontros religiosos são frequentes. No ônibus, no carro, na esquina, com os vizinhos; mas inevitavelmente na alma. É o dia em que os crentes saem para encontrar-se com o outro. O espaço religioso onde se dá o encontro é o Templo. Ali, as pessoas expressam suas emoções no encontro com o Sagrado ― ou não. 

É possível no mesmo espaço cúltico haver sentimentos e comportamentos tão distintos? A pergunta parece irracional, pois quando se trata de ser humano não se deve esperar outro comportamento: indivíduos realçando a própria personalidade. Entretanto, a pergunta é cabível no espaço religioso cristão, pois a coletividade depara-se com a mensagem unívoca de Jesus de Nazaré baseada no amor, na fé e na esperança.

Após um culto, como pode a pessoa não demonstrar, ou ao menos, sentir-se desafiada a amar quem está próximo? ― A esposa, o esposo, o filho, a filha, a mãe, o pai, o avô, a avó, o amigo, a amiga, o colega de trabalho com quem convivemos mais tempo que o nosso cônjuge... A lista é longa! E as possibilidades são muitas. Jesus de Nazaré é o próximo refletido nestas e outras pessoas (Mt 25.45).

Após um culto, por que uma pessoa não é instada a ter a fé de Jesus de Nazaré? ― a pergunta não é a fé “em”, mas a “de” Jesus. Impor-se a fé de Jesus é firmar o compromisso de realizar as mesmas obras do meigo nazareno. Mas não as mesmas obras de Jesus criadas pela mente evangélica hollywoodiana que só pensa em Milagres. Eu falo dos atos simples de Jesus como os de chorar diante de uma família por um amigo morto; consternar-se diante de uma mãe que acabara de perder o seu filho; indignar-se contra o sistema religioso opressor que rouba a alma e a inocência das pessoas: esses roubadores de almas parecem ser incapazes de se consternarem diante do sofrimento alheio. É o resultado da fé megalomaníaca. Esta não agrada a Deus! Mas sem a fé de Jesus é impossível agradá-Lo.

Após um culto, uma pessoa pode perder a esperança na vida? Num lugar onde, pelos motivos puros do Evangelho, ela devia ser impulsionada a ter esperança na vida, afoga-se em desesperos e em nós psicológicos esquecidos no “limbo” do subconsciente. A esperança teologal é para ser nutrida e manifesta num ambiente humano desesperado. É possível! O meigo nazareno recuperou essa esperança dos discípulos no caminho de Emaús quando eles a haviam perdido.

Amor, Fé e Esperança. O domingo dos encontros e desencontros religiosos pode se tornar em um dia de horror ou de amor, fé e esperança. De horror quando o espaço religioso encontra-se a serviço de uma máquina burocrática aonde as maiores e as principais casas de espetáculos do Brasil não chegam perto da complexidade e da engrenagem dos espetáculos religiosos dos domingos à noite. De amor, fé e esperança quando não há casa de espetáculo religioso nos domingos à noite, mas reuniões de pessoas simples que amam Jesus. Corações singelos, contritos; sofridos, sim! Mas amorosos, fervorosos e esperançosos no autor da preciosa fé.

Tenho visto o meio religioso bem de perto. Suas entranhas e lugares lúgubres. E garanto-lhe: há pessoas que se especializaram em usar a inocência alheia porque entendem ser o jeito mais fácil de enriquecerem, ficarem famosos e manter pequenos impérios em nome da fé. Confesso: não me acostumei a esse ambiente. Alegro-me por um lado porque é sinal de que não me vendi. Mas por outro, dilacero-me por ver, todos os dias, pessoas outrora humildes, portadoras de sentimentos puros e de ideais legítimos, transformando-se em cascas impenetráveis da dissimulação. O Evangelho jamais poderá frutificar: se é que um dia houve semente ali.

Para tais pessoas, o domingo tem sido de desencontros angustiantes e decepcionantes, embora algumas ainda não tenham se dado conta disso. Outras são as que promovem os desencontros do domingo.

Todavia, a minha esperança está em pessoas cujo domingo não é uma mera casa de espetáculo religioso. Mas a celebração do grande encontro de amor, fé e esperança que explode e multiplica-se em encontros verdadeiros e espontâneos que perdura o resto da semana, do mês, do ano e ao longo da existência.

Um domingo...

Paz e Bem!

M.O.O.
Rio de Janeiro - RJ
        

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A PENTECOSREFORMA


Marcelo Oliveira de Oliveira

Um culto simples, a pequena igreja cheia do Espírito, de pessoas doutas e incultas, alfabetizadas e analfabetas. Num processo misterioso de simbiose entre o espírito, o coração, e a mente, embora este último fosse ignorado por muitos e em muitas décadas sistematicamente. Mas o Espírito, o Coração e a Mente estavam unos lá marcando e fazendo a história da maior igreja evangélica brasileira.
O tempo passou, se passou, foi passando e passando... Chegou! O tempo em que degrau a degrau a pequenina igreja foi se agigantando e transformou-se na Igreja. Na Igreja da Liturgia. Na Igreja da Burocracia. Na Igreja da Política Eclesiástica. Todavia, a igrejinha continua lá. Na liberdade da sua simplicidade. Sim! E dos seus muitos exageros. Subindo os morros, buscando os drogados, as prostitutas; enquanto que os “intelectuais pentecosreformados” da Igreja Grande, das suas confortáveis poltronas, ficam a dizer o que pode ou não fazer a igreja simples.
“Irmãs do coque”, “não cortam os cabelos por legalismo”, “púlpito não é lugar para analfabetos”; “mulheres sem vaidades oprimidas pelos seus pastores”; “os coronéis legalistas de uma figa” ― dizem os pentecosreformizados supostamente defendendo a liberdade da Graça quando não compreendem que uma cultura não se muda da noite para o dia.
A pessoa simples da igreja simples peregrina pela rua e depara-se com um simples profeta nunca dantes visto, a dizer:

― A tua filhinha está doente. Entrega o meu recado ao meu povo e dela cuidarei!

A pessoa simples imediatamente obedece a voz de que ela entendeu ser a do seu Senhor. No ato da entrega do recado divino, em sua simplicidade, a pessoa simples se alegra no divino Salvador, explode em gloriosa e profusa glossolalia. Pula, canta e dança no Espírito do Senhor.
Mas o caso cai na rede social. A íntima experiência passa a análise pública dos “intelectuais pentecosreformados”. Os cientistas religiosos analisam a experiência alheia como um objeto fenomenológico da experiência religiosa fosse passível de dissecação sob o pressuposto da “Sola Scriptura”.
A fórmula contemporânea do Espírito é assim: Para se glorificar a Deus deve-se falar em língua baixinho, um de cada vez (1 Coríntios 12 e 14 diz que tem de haver ordem e decência). Quem diria! O processo de PentecosReforma, embora incipiente, por trás da tese da “única Teologia que honra a Deus e Humilha o Homem”, vem humilhando centenas de irmãos e irmãs sinceros que tiveram experiências profundas e subjetivas com Deus. De maneira alguma exalta a Deus!
Embora, sem voz, mas sendo a maioria, a igreja simples luta por não perder o bem mais precioso da sua história: a espontaneidade do Espírito e a simplicidade de igreja.
O tempo vai passando, está passando e vai chegando... A PentecosReforma vai chegando e tá chegando...